O que podemos encontrar lendo as Sagradas Escrituras?

Sagrada-Escritura

   Mês da biblia  No mês de setembro a Igreja ilumina uma dimensão fundamental – porque é expressão do acontecimento fundante – da fé cristã: a Bíblia. Este mês foi escolhido no Brasil desde 1971 precisamente porque em 30 de setembro se celebra o dia de São Jerônimo (340-420), grande estudioso e tradutor dos textos sagrados. O tema deste ano é “Discípulos e Missionários a partir do Evangelho de Mateus – Lema: Ide, ensinai e fazei discípulos (cf. Mt 28, 18-19)”. Assim, três são as tônicas do lema: ir, ensinar e fazer discípulos.

            1) Ir – Como todo verbo implica uma ação, o cristão é por natureza, um agente que, por sua vez, só o faz em nome de Cristo, pois, como Ele mesmo assevera: “sem mim nada podeis fazer” (cf. Jo 15, 5). Desta mesma maneira podemos interpretar o anúncio da Ressurreição do Senhor por Maria Madalena: era preciso comunicar, era necessário ir àqueles que seguiam Jesus e dizer-lhes a imensa alegria de reencontrar o Senhor, entretanto, ressuscitado, glorioso e portador da joia evangélica concernente ao triunfo sobre o pecado e a morte. Este anúncio caracteriza a atividade apostólica da Igreja orientada pela proposição paulina segundo a qual “a fé vem pelo ouvido” (cf. Rm 10, 17). Assim o fizeram os discípulos de Emaús, assim o fez a geração apostólica, a geração subapostólica etc.

            2) Ensinar – Das Sagradas Escrituras e do modo de viver dos cristãos decorrem princípios e valores que também são constitutivos do ser cristão: fraternidade, liberdade, igualdade, caridade, justiça, verdade e assim por diante. Ademais, existe um conjunto de verdades reveladas e aprofundadas que, enquanto tais, constituem a comunhão na mesma fé, isto é, a profissão de uma fé comum (eis aqui o vínculo entre o “eu creio” e o “nós cremos”). Tudo isso é ensinável, transmissível. Mas esse conjunto de princípios, de valores e de verdades doutrinais – alguns dos quais ressoam na sociedade civil –, por si só, fazem de alguém um cristão? A resposta, articulada por Bento XVI em Deus é amor e retomada por Francisco em A alegria do Evangelho, é inequívoca: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”. Por conseguinte, o ser cristão postula um encontro e um discipulado, que ultrapassam decisões éticas (no sentido de ter precedência) e cuja referência é uma Pessoa: Jesus Cristo.

            3) Fazer discípulos – O discipulado – palavra que etimologicamente remete a aprendizado – é o dom de poder estar próximo do Senhor, de tê-lo como mestre e amigo; é a graça de aprender sua doutrina oriunda de sua intimidade com o Pai, pois Nosso Senhor fala daquilo que ouviu de seu Pai (cf. Jo 8, 38) e fascina a todos com seu ensinamento (cf. Lc 19, 20). Além disso, ser discípulo de Jesus implica a incorporação em sua pessoa pelo batismo, redundando na filiação divina. Destarte, incorporados em Cristo, podemos pouco a pouco configurar-nos a Ele de modo a adotar seu estilo de vida, a viver como ele viveu.

            Finalmente, a pergunta feita no início – o que podemos encontrar lendo as Sagradas Escrituras? – deve ser reformulada para “quem podemos encontrar lendo as Sagradas Escrituras?”. À luz desta reflexão podemos responder que ler a Bíblia é condição fundamental para encontrar-se com Jesus, de modo que, como dizia São Jerônimo, “ignorá-la é ignorar o próprio Cristo”. Aqui devemos observar o estreito vínculo existente entre ir, ensinar e fazer discípulos. O Senhor que nos pede isso foi o primeiro a realizá-lo, Ele veio a nós, nos ensinou sobre aquilo que aprendera de seu Pai e, neste enleio, fez-nos seus discípulos. E agora, o que nos resta? Imitá-lo! Pois seu amor nos impele a isso (cf. IICor 5, 14).

 

 

Thales Maciel Pereira

3º Ano de Filosofia