O Livro dos Juízes

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O título Juízes (do hebraico Shôpfetîm) provém do fato de que nove entre os dez protagonistas da obra “julgam” (do hebraico shaphat) Israel – O autor distingue entre os Juízes ”maiores e os Juízes “menores” – O verbo hebraico normalmente traduzido por “julgar” tem dois significados básicos: exercer a função de juiz e governar. Nenhum dos juízes é jamais associado a qualquer função de julgamento ou arbitragem, exceto Deborá (4,4-5); mas isso foi antes de ser chamada por Deus. Mais exatamente, os juízes maiores aparecem exercendo um papel especificamente militar e, às vezes, agindo como governantes civis. Não é dada nenhuma informação sobre os juízes menores.

Os Juízes maiores são: Otoniel, Aod, Débora (e Barac), Gedeão (e Abimelec), Jeftté Sansão. Os Juízes menores são: Samgar, Tola, Abesã, Elon e Abdon. Apartir das narrativas percebemos que todos eles aparecem empenhados em favor do povo inteiro, como regentes de Israel e como precursores dos reis.

O livro dos Juízes deve ser lido no contexto da história deuteronomista. O propósito do autor é apresentar uma teologia básica da história, ou seja, o autor que nos mostra que “o pecado leva ao castigo, mas o arrependimento traz perdão e libertação”. O autor se diria ao povo que estava no exílio. O autor explica-lhes que perderam a sua terra por causa de seus pecados, mas se arrependerem e se voltarem para o senhor, este mais uma vez os perdoara e os libertará.

Depois da sua chegada a Canaã e do seu estabelecimento no território, como está descrito em Josué, as doze tribos ficaram de certa forma um pouco dependente dos povos que ainda ocupavam a terra. Cananeus e filisteus continuavam a sua luta para expulsar as tribos israelitas que se tinham infiltrado em algumas parcelas do seu território; e a conquista total da terra e o consequente predomínio dos israelitas sobre os povos locais ficará para mais tarde, no tempo de Davi (séc. X a.C.).

Depois da morte de Josué, por volta de 1200 a.C. (Js 24), as tribos fica­ram sem um chefe que aglutinasse todas as forças para se defenderem dos inimigos estrangeiros. A única autoridade constituída era a dos anciãos de cada tribo. Além disso, estas pequenas tribos eram muito independentes entre si, e não era fácil congregá-las. Ficavam, assim, mais expostas aos ataques de filisteus, cananeus, madianitas, amonitas, moabitas, todos inimigos históricos de Israel.

O livro dos Juízes é anônimo, divide-se em três partes: um prólogo (1,1-2,5), história dos juízes (2,6-16,31) e um apêndice que trata da migração da tribo de Dan e guerra civil contra Benjamin (17,1-21,25). O material antigo do livro remonta, passando por etapas orais (onde não existia a escrita ainda), até pouco depois dos fatos narrados. Alguns autores afirmam que a composição final do livro provavelmente deve ser situada no tempo do exílio.

O livro dos Juízes é um dos chamados “Livros Históricos” da Bíblia, mas é histórico segundo o modo de escrever História no seu tempo. Nesse gênero literário diferente da historiografia moderna, além dos fatos e documentos também eram relatados, mitos, discur­sos (Cf. Jz 9,7-20), etiologias, peque­nos fatos do dia-a-dia, etc. Também encontramos um quadro geral único do modo de vida das tribos de Israel, depois da instalação em Canaã, no que toca à vida política, social e religiosa. Vamos encontrar no livro dos Juízes um difícil relacionamento entre algumas tribos, que irá ter o seu desenlace na separação entre o Norte e o Sul, depois de Salomão.

O tempo dos Juízes corresponde a mais de dois séculos de História. A cronologia real da época dos Juízes nunca poderá afastar-se muito do período entre 1200 e 1030.

Como qualquer livro da Bíblia, também o dos Juízes não foi escrito para nos fornecer simplesmente fatos históricos das tribos de Israel. Antes de mais, foi escrito para manifestar como Deus acompanha o seu povo na sua História concreta, mesmo no meio dos mais graves acontecimentos, como as guerras contra os povos inimigos.

A teologia do livro dos Juízes é proposta pelos redatores deuteronomistas nas Introduções (1,1-3,6), em que aparecem fórmulas características como “os filhos de Israel fizeram o que era mau aos olhos do Senhor” (2,11; 3,7.12; 4,1; 6,1; 10,6; 13,1). Desta infidelidade do povo ao Deus fiel da Aliança segue-se o castigo, que aparece nas derrotas perante os povos estrangeiros; e depois, a vitória, mediante os intermediários do Senhor, os Juízes “salva­dores” (3,31; 6,15; 10,1). A ideia teológica que ressalta deste livro é, pois, a imagem que um povo livre tem de Deus, que o acompanha para o libertar.

 

Pe. Leandro Paulo do Couto

Comunidade Canção Nova

Diocese de Lorena – SP

 

Fonte:

 A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2008. 

A Bíblia do Peregrino. São Paulo: Paulus, 2011. 

Bíblia Sagrada. Tradução da CNBB. 13 ed. Edições CNBB; Editora Canção Nova- São Paulo.

Bíblia Sagrada. Ave Maria, Edição de Estudo. 3 ed. Editora Ave Maria, São Paulo- 2012

BROWN, Raymond E; FRITZMYER, Joseph A; MURPHY, Roland E. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo, Antigo Testamento. Academia Cristã; Paulus – 2007

SELLIN, E; FOHRER, G. Introdução ao Antigo Testamento. Trad. D. Mateus Rocha – São Paulo: Academia Cristã: Paulus, 2007.