O Culto Cristão na Igreja do Império (séc IV – VI)

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O Edito de Milão (313 d.C.) declarava que o Império Romano seria neutro em relação ao credo religioso, acabando oficialmente com toda perseguição aprovada oficialmente, especialmente do Cristianismo. O edito foi emitido pelo Imperador Constantino I, o grande, e por Licínio, o imperador do Oriente.

A igreja tem diante de si a imensa tarefa de transformar o mundo pagão num mundo cristão. A nova situação não traz só benefícios, mas também problemas. A liberdade e a tranquilidade de que agora goza influem na qualidade de seus numerosos adeptos. São abundantes as infiltrações do paganismo na base e as intromissões políticas nos dirigentes da Igreja[1]. Além das esplêndidas “Basílicas”, construídas sobretudo, com a ajuda do imperador e de membros da sua família, os Bispos são equiparados aos mais altos funcionários do Império. O Cristianismo se torna a religião oficial do Império.

A partir da segunda metade do século IV começa a estruturar o ano litúrgico, com o ciclo pascal e natalício. Também foram redigidos os formulários litúrgicos a partir do século IV (350) Ac. e vão até pelo fim do século VII (680). Surgiram muitas formulas.  Algumas até com falhas.

Com fim das perseguições, os mártires se tornam objeto de atenção especial e de veneração. Com isso começa o culto aos Mártires.

Por outro lado, temos as controvérsias teológicas, além do problema doutrinal e religioso, implicam também elementos culturais e políticos. Temos o donatismo na África, o nestorianismo. Para resolução destas heresias foram realizados os concílios de Nicéia (325), Éfeso (431) e Calcedônia (451) todos com a participação ativa do imperador (Cf. BOROBIO p.70)

Também vemos ver florescer a rápida expansão do monacato. Numa Igreja favorecida pelos privilégios imperiais, há a nostalgia do combate e da valentia heroica das épocas de perseguição por causa do Senhor. A “fuga do mundo” procura suprir, com renúncia e mortificação, a entrega do martírio; como explicarão mais tarde os monges irlandeses, o martírio branco substituiu o martírio vermelho (Cf. BOROBIO p.71).

As expedições missionárias e as peregrinações constituem um dos fatores da evolução da liturgia neste período. Durante mais de três séculos, a liturgia de Roma foi celebrada em grego. A latinização da Igreja de Roma realizou-se de maneira progressiva, passando necessariamente por uma época de bilinguismo. A passagem do grego para o latim viria a ser efetuada no pontificado do papa Dâmaso (366-384). Até o séc XX elas permaneceriam no latim.

Durante os séc. VI – VIII, as liturgias latinas  se apresentam diversificadas de forma regional, ainda  não tem a predominância da liturgia de Roma que nos períodos seguintes passou a predominar.

As instabilidades deste período nos ensinam que o culto cristão, embora nunca deixando de ser um culto “espiritual”, não conseguiu se livrar das situações concretas do ambiente histórico, social e cultural no qual estava inserido. O fato de que, desta forma, o culto cristão tenha adquirido as características específicas, ou seja, o “espírito” de um determinado povo, deve ser avaliado num sentido muito positivo; isto, porém, não deve impedir a análise do fenômeno sob o aspecto crítico[2].

 

Confira também:

Oração Eucarística nos primeiros séculos

A celebração eucarística nos séculos II e III

Liturgia nos sécs. II – III

Liturgia na primeira tradição apostólica

O culto na época do Novo Testamento

 

 

[1] BORBIO, Dionisio. A celebração na Igreja. V 1. Tradução: Adail U. Sobral. Edições Loyola. São Paulo. 1990

[2] AUGÉ. Matias. Liturgia. Tradução: Comercindo B. Dalla Costa.  2 ed. Ave Maria, São Paulo. 1998

 

 

Pe. Leandro Couto