Agape: amar o inamável

nineve

Homilia – XXVII Semana do Tempo Comum – A

Jn 4,1-11 / Sl 85 / Lc 11,1-4

Irmãos e irmãs,

A liturgia de hoje (11 de outubro de 2017) nos coloca em contato com o centro do cristianismo: o amor efetivo de Deus, cujo nome é misericórdia, e cuja revelação em Cristo o manifestou como Pai. Pai de um Filho unigênito ao qual somos incorporados mediante o batismo. A imagem de Deus anunciada por Nosso Senhor Jesus Cristo, aliás, a imagem que é o próprio Jesus – “a imagem do Deus invisível” (Cl 15) –, essa imagem pode ser acolhida por nós como muito bela, agradável e ideal. Mas, tão logo a aplicamos à concretude da existência, o romantismo se esvai. Vejamos isso a partir da primeira leitura, com a qual concluímos a profecia de Jonas neste ciclo litúrgico.

Em primeiro lugar consideremos o sentido literal. O livro de Jonas é uma parábola cujo núcleo temático é a misericórdia. Não somente isso: trata-se do anúncio da misericórdia para quem não seria aparentemente objeto dela. O anúncio deve se dirigir a Nínive, capital da Assíria a partir de Senaquerib, uma cidade cuja marca era o imperialismo e a agressividade cruéis contra o povo de Deus. Nínive não representava o mundo gentio como tal, mas sim os opressores de todos os tempos. A eles deve dirigir-se Jonas para os exortar à conversão, e a eles Deus concede o seu perdão. Precisamente aqui reside a dureza deste Sagrado texto: Deus ama também os opressores, “faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,45).

O sentido literal cede espaço ao sentido alegórico que nos revela verdades fundamentais de nossa fé. O próprio Cristo Jesus aplicou a si o prodígio ocorrido com Jonas de estar três dias e três noites no ventre do monstro marinho (cf. Mt 12,38ss) como sinal de seu mistério pascal. Mas, devemos confessar, a alegoria termina por aí. Se meditamos um pouco, percebemos que, no fundo, Cristo Jesus não é um novo Jonas, mas um anti-Jonas. Porque Cristo jamais foge de Deus e da Sua palavra, não opõe resistência, não desce ao seio da terra por causa dos seus pecados, não se magoa com Deus. Jonas é reticente quanto ao anúncio da misericórdia divina para Nínive. Jesus não hesita em anunciar misericórdia, graça e salvação para Zaqueu e para Levi. São Beda, o Venerável, comentando o evangelho da vocação de Levi, diz que Jesus viu o publicano para dele ter misericórdia e para o eleger – miserando atque eligendo.

Isso nos conduz ao sentido moral da liturgia desta Santa Missa. Como agir corretamente? A reticência de Jonas quanto ao anúncio da misericórdia aos que não a “merecem” seria para nós a norma do reto agir? Ou, na verdade, deveríamos nos deixar impelir pela caridade de Cristo que vem “procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10)? A fuga de Jonas ante a misericórdia de Deus seria para nós a imagem da consciência supostamente bem formada que só se apresenta diante de Deus quando possui méritos para fazer por merecer Seu amor? Ou antes, deveríamos nos identificar com o Cristo humilde que jamais fugiu da presença de Deus, mas pautou seu ser e seu agir a partir da íntima comunhão com o Pai?

Com isso, caros irmãos e irmãs, defrontamo-nos com o sentido anagógico, isto é, com a significação eterna dos acontecimentos e ensinamentos da presente liturgia. O Salmo 85 nos indica com segurança este sentido quando atribui ao ser de Deus o amor, a paciência e o perdão. Ora, em que consiste o amor divino? O que é a agape? O que é a caridade? Olhando para Cristo entendemos que o que caracteriza a agape é o amor direcionado ao inamável. Nínive não merecia o amor de Deus, mas foi amada. Zaqueu não merecia o amor de Deus, mas foi amado. Levi não merecia o olhar misericordioso de Cristo, mas foi amado com um olhar. Quão duro foi para Israel aceitar que Deus perdoava os opressores. Quão duro é para nós aceitar que Deus ama quem não deveria ser objeto de amor. Quão difícil nos é aceitar que Deus nos ama como somos e do jeito que estamos.

Talvez o nosso puritanismo nos faça indignados ante a perspectiva de que joio e trigo cresçam juntos, de que o trabalhador da última hora ganhe o mesmo salário que o trabalhador do início do dia… Talvez o nosso escrúpulo nos faça estremecer diante das palavras de Jesus que asseguram a precedência no Reino de Deus dos cobradores de impostos e das prostitutas que creem e se convertem…

Duas coisas são certas: tudo é graça e a desgraça é estar diante da graça e não acolhê-la de modo a não mudar de vida e converter-se. Como dizia Georges Bernanos, a glória da literatura francesa católica no séc. XX,

a única desgraça irreparável é encontrar-se, um dia, sem arrependimento, diante da face que perdoa.